5 de abril de 2019

A monja e o professor: moral e elemento fiscalizador segundo Clóvis de Barros Filho

Quero destacar a fala de dez minutos do professor Clóvis sobre moral versus necessidade de um controle fiscalizador como elemento civilizatório, extraída do longo vídeo, gravado na Livraria Cultura da capital paulista, do lançamento do livro A monja e o professor, escrito em coautoria entre Monja Coen e Clóvis e Barros Filho[1].

A fala do professor inicia a partir do tempo marcado no link a seguir - https://youtu.be/AII78Ha9eVs?t=1198 -  e devo ressaltar que, depois de alguns segundos, o áudio distorcido do microfone é corrigido.

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1. A possibilidade de agir respeitando um princípio de conduta eleito voluntariamente pelo indivíduo é a moral. É quando se faz ou se deixa de fazer algo não em razão da fiscalização de terceiros, mas pela livre eleição daquele algo como conduta a se praticar naquela situação e que, em respeito à essa livre eleição, não deve ser transgredida.

2. A moral ainda existe e o fato de pouco se falar sobre ela nesses termos não quer dizer que não exista mais. Se não falo mais sobre o chapéu porque não faz parte da minha indumentária, isso não quer dizer que não existam mais chapéus. Se alguém perde a carteira, é perfeitamente possível que outrem a encontre e, mesmo que anônimo no ato da descoberta, mesmo que certo da impunidade caso optasse por praticar o furto, esse outrem, em razão de um imperativo moral escolhido por ele, decide devolver a carteira.

3. Marco Túlio falando: em nenhum momento, nesse exemplo da carteira, Clóvis deu a mínima margem a se interpretar a devolução voluntária da coisa como um ato nobre ou de grandeza. Na verdade, se pensarmos bem, reconhecer esse comportamento como algo digno de elogio é reconhece-lo como exceção e enxergar a média dos valores da coletividade (brasileira?) como mesquinha e desprezível.

4. O novo exemplo trazido por Clóvis é o caso de um acordo monogâmico escolhido por um casal. Em certo momento, o homem viaja sem a parceira e se vê a sós com outra mulher numa situação que há atração recíproca e oportunidade certa de uma relação sexual absolutamente livre de qualquer vigilância, de qualquer censura. “O que acontecer aqui, fica aqui”, diz a mulher, “não tem ninguém olhando, ninguém fiscalizando”.

5. A decisão do homem pela recusa da oferta, naquele exemplo, a partir da regra (moral) previamente estabelecida com seu par, independe do elemento fiscalizador e, nesse sentido, se trata de uma manifestação da sua liberdade de consciência.

6. Se a presença do elemento fiscalizador fosse uma variável a ser considerada para a tomada de decisão, sua escolha não mais seria livre, o homem seria escravo da fiscalização externa, da vigilância de terceiros. O que faço ou deixo de fazer dependeria exclusivamente do fato de estarem me vendo/monitorando ou não. E, depender da consciência de terceiros para agir, muito se aproxima da definição de escravidão.

7. Clóvis então defende que quando a moral se liquefaz na consciência coletiva, quando ela deixa de ser a prática comum entre as pessoas, o bom comportamento passa a exigir a presença constante do binômio fiscalização-repressão. E, momento adiante, as pessoas passam a considerar a vigilância constante como a única maneira de manter as boas práticas e a (aparente) coesão social. É a desconfiança como protocolo dominante nas relações sociais. Seria esse o modelo de sociedade para deixar de legado aos nossos filhos, indaga o professor.

8. Exemplos dados sobre o predomínio da desconfiança: i) a abolição do vender fiado no comércio: é a vitória da premissa de que todos são potencialmente caloteiros; ii) quando Clóvis, ao experimentar, numa loja de hotel, uma sunga de dezessete reais e se decidiu por compra-la, é coagido pela vendedora para ali deixar a sunga porque ele disse que teria que buscar a carteira para pagar pela coisa[2]; iii) quando Clóvis se identificou mas foi barrado por um segurança, muito em razão da roupa, num evento da Associação dos Magistrados do Brasil que ele seria um dos palestrantes.

9. Uma boa ilustração que me ocorre são os radares nas rodovias. Muitos dos motoristas só respeitam o limite de velocidade - que, via de regra, não existe por mera idiossincrasia de um administrador relapso, mas surge a partir de estudos técnicos – quando há a presença de fiscalização. Há uma verdadeira alternância de velocidades: i) se me fiscalizam, eu respeito; ii) caso contrário, corro como se não houvesse amanhã e minha vida (e a sua) significasse nada. A regra geral que se extrai é: só respeito o bem comum, nesse caso, a segurança numa via pública, se alguém estiver me vigiando.

10. Desse modo, o predomínio da desconfiança recíproca marca um empeoramento da civilização. As pessoas se apequenam em favor de permanente vigilância, em prejuízo de uma maior “autonomia existencial”. Porém, esse cenário no qual se é visto como “mentiroso, desonesto e ladrão sistematicamente” não derivou de uma força sobrenatural, exterior às pessoas, trata-se de uma obra coletiva, porque somos todos corresponsáveis pela sociedade em que vivemos.

11. Para encerrar, Clóvis, com seu peculiar jeito de profeta, conclama a todos que retomem, individualmente, a eleição de posturas morais como possível forma de melhora da vida em sociedade, vida hoje tão apequenada pela necessidade de vigilância-repressão constante como forma predominante de gerar boas condutas.

Eis a síntese da fala de Clóvis de Barros Filho no vídeo de lançamento do livro A Monja e o Professor.

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Não sei vocês, mas desde adolescente, toda vez que tive de passar pelo crivo de uma portaria para entrar num prédio me senti alvo de desconfiança. Qual seu nome? Onde você vai? É melhor assim, é mais seguro para todos. Não reclame.

E hoje, com as portarias remotas, a vigilância não tem mais cara. Agora, quem desconfia de mim é uma imagem despersonalizada. Sequer tenho a chance de quebrar esse sentimento por meio de um diálogo cara a cara. É o protocolo da desconfiança erigido como valor inegociável.




[1] Lattes de Clóvis de Barros: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4794618Y8 Além das titulações e da fluência em seis idiomas (sem conta o português), chama a atenção que as duas graduações - em Direito pela USP e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero – foram feitas concomitantemente, de tal sorte que, aos 20 anos, Clóvis já possuía esses dois diplomas. Pelas minhas contas, ele entrou nas duas faculdades aos 15 anos e 4 meses de vida.

[2] Pode não parecer, mas a forma que Clóvis narra essa história da sunga é engraçadíssima. Link a partir do início dessa história: https://youtu.be/AII78Ha9eVs?t=1537

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