1 de abril de 2019

Zimbardo - O Efeito Lúcifer - Prefácio


O Efeito Lúcifer é um livro de mais de 700 páginas que descreve e analisa os aspectos psicológicos que levam as pessoas a praticar condutas tida por boas e, principalmente, más. Escrito pelo professor de psicologia social Philip Zimbardo, com mais de 70 anos quando da publicação da obra, em 2007. 

Abaixo, uma síntese do prefácio da obra, que é o que eu chamo de um prefácio honesto, ou seja, traz uma boa e clara visão geral do que virá adiante.

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1. O cerne do livro surgiu de um experimento em agosto de 1971 (que jamais seria aceito por qualquer comitê de ética na atualidade) conhecido por Experimento da Prisão de Stanford[1]. Zimbardo coordenou uma pesquisa que consistia na observação e análise, dentro de um ambiente prisional, da mentalidade de carcereiros (“equipe correcional”) e prisioneiros. A título de prisão foi usado um espaço improvisado para tal dentro da própria universidade. Os voluntários eram todos estudantes universitários, os quais, “décadas depois, (...) não conseguem esquecer (...) [o] sofrimento que passaram durante e depois desta pesquisa”.

2. Nos anos 2000, Zimbardo foi consultor no julgamento de militares estadunidenses processados por abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib durante a ocupação dos EUA no Iraque. Ele foi consultado para discorrer sobre o quanto o contexto pode ter contribuído na escolha dos militares em cometer abusos[2]. O autor afirma que houve um paralelismo entre os fatos reais naquela prisão e o observado no experimento de 1971. Para ele:


“Uma compreensão completa da dinâmica do comportamento humano requer o reconhecimento da extensão e dos limites do poder pessoal, do poder das circunstâncias e do poder sistêmico” (p. 15).

3. Zimbardo defende uma interessante “abordagem de saúde pública” para mudar ou evitar comportamentos indesejáveis de indivíduos e grupos. Além de reconhecer as características daqueles indivíduos e grupos, seria necessário identificar as forças circunstanciais que conduzem a determinados comportamentos e tentar modificar ou evitar essas forças externas porque “a não ser que nos sensibilizemos acerca do poder real do Sistema (...) a mudança comportamental será transitória e a mudança situacional, ilusória”.

4. Apesar de se voltar para as circunstâncias sistêmicas como objeto de estudo e força motriz para (parte) da maldade praticada por indivíduos, o autor dá clara ênfase ao fato de que a compreensão dessas circunstâncias sistêmicas “não exime ou absolve a pessoa da responsabilidade por ter praticado atos imorais, ilegais ou malignos”.

5. Por poucos parágrafos, Zimbardo, nascido em 1933 e então morador do South Bronx em Ney York, discorre sobre o porquê de ter decidido estudar a psicologia do mal, dando destaque especial para o contexto pobre que permeou sua infância.

 
 
6. Adiante, o autor descreve cada uma das partes de seu livro. O Capítulo 1 fala sobre as transformações do caráter humano, de pessoas boas para más. Os capítulos 2 a 9 narram de modo cronológico os fatos ocorridos durante o Experimento da Prisão de Stanford. A análise e discussão do experimento ficam para os capítulos 10 e 11. Para Zimbardo:


“Uma das maiores conclusões do Experimento da Prisão de Stanford é que o poder penetrante, ainda que sutil, de um grande número de variáveis envolvidas em quaisquer circunstâncias pode dominar a vontade de resistir de um indivíduo” (p. 17).
 7. Os capítulos 12 e 13 descrevem as dinâmicas psicológicas que induzem pessoas boas a praticarem o mal. O capítulo 14 discute sobre as causas que levaram à prática de torturas na prisão de Abu Ghraib. Zimbardo se vale do capítulo 15 para lançar acusações sobre a cadeia de comando dos EUA acerca dos episódios na prisão iraquiana, dos comandantes da operação até a administração Bush. O capítulo 16, último, mais do que necessário depois de tanto discorrer sobre o mal, fala sobre como indivíduos podem desafiar o poder das circunstâncias e do Sistema:

 “Em todas as pesquisas citadas e em exemplos da vida real, havia sempre aqueles indivíduos que resistiam, que não cediam à tentação. O que os salvou do mal não foi uma bondade mágica herdada, mas, provavelmente, uma compreensão, ainda que intuitiva, de táticas mentais e sociais de resistência” (p. 18).

Eis a síntese do prefácio de O Efeito Lúcifer de Philip Zimbardo. 

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Bateu vontade de falar bobagem: impressionante para a mim a semelhança entre Zimbardo, que tanto escreve sobre o mal, e o ator Vincent Price, muito querido por mim pela dezena de filmes que protagonizou nos anos de 1960 baseados em textos de Edgar Allan Poe que, se você leitor, por algum desvio de caráter desconhece, é o maior autor de ficção de todos quando se trata dos íntimos mecanismos da perversidade humana.

Zimbardo
Vincent Price


[1] Em 2015 foi lançado um filme a respeito dessa pesquisa chamado O experimento de aprisionamento de Stanford, atualmente em cartaz na Netflix (link: https://www.netflix.com/title/80038159). Ele leva em conta basicamente os capítulos 2 a 9 do livro ora comentado, os quais narram em ordem cronológica, descritiva e sem interpretação os fatos que foram se sucedendo durante o experimento. O filme também tem uma abordagem linear e essencialmente descritiva, transmitindo ao espectador – pelo menos este que vos escreve – inicialmente uma sensação de estranheza, mas que gradativamente se consolida em angústia diante da espiral crescente de comportamentos para lá de perversos.

[2] Na página da Wikipédia em português sobre Abu Ghraib tem duas fotos que ilustram alguns dos abusos praticados: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pris%C3%A3o_de_Abu_Ghraib Na época, lembro que houve repercussão mundial em função da divulgação dessas imagens. Foi forte o trabalho do governo dos EUA em tentar dissociar a imagem do país em relação aos soldados, tratados como “maçãs podres”, jamais como indivíduos sujeitos à influência ambiental.

Um comentário:

  1. O review do livro no site da Amazon me trouxe aqui. Boa síntese! Possivelmente irei adquirir a versão em Kindle para ler durante as férias. Também compartilho reviews de livros de vez em quando

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