30 de março de 2019

Envelhecer, memória e a importância do sono - Fabiano Moulin - Casa do Saber

Síntese estendida vídeo de 16m14s de Fabiano Moulin publicado em 17 de janeiro de 2019 pelo canal Casa do Saber. O autor é médico, graduação pela UFES iniciada em 2003, com residência em neurologia entre 2010 e 2013 e mestrado também em neurologia entre 2014 e 2016, ambos pela UNIFESP. Mais dados, conferir o lattes.

Tratam-se de tópicos fracionados, interligados pela área do conhecimento – neurologia –, mas não necessariamente coesos entre si. Por isso, no título do vídeo, a expressão “o melhor de” Fabiano Moulin. Dessa forma, a síntese acabará por parecer um tanto fragmentada.

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1. Até o século XVIII, a expectativa de vida era de 30 anos. Dessa forma, a possibilidade do envelhecimento da população é um fenômeno recente, e envelhecer com saúde, verdadeiro um privilégio. Hoje, no Brasil, quem chega aos 90 anos tem 50% de chance de desenvolver Alzheimer. No entanto, atualmente resta claro que o sujeito tem um papel ativo na qualidade de seu envelhecimento, não se trata exclusivamente de herança genética, de envelhecer e torcer pelo melhor (conferir parágrafo 12).

2. Sobre envelhecer, sobre desgastar o corpo, é importante lembrar que metabolismo é o conjunto de reações físicas e químicas de um organismo. Envolve processos de desgaste e reparo na busca pela manutenção de um equilíbrio nesse organismo. Para viver muito, é necessário reduzir o desgaste e/ou aumentar o reparo.

3. Uma das reações metabólicas de reparo é a que envolve o telômero (do grego telos, final, e meros, parte), que fica na parte final do cromossomo e serve como barreira contra o desmanche de qualquer cromossomo quando da divisão celular. No entanto, a cada duplicação celular o telômero encurta, de tal sorte que fatalmente ele acaba e, consequentemente, a célula morre.

4. A enzima responsável pelo reparo do telômero chama-se telomerase e sua produção no corpo – essa é a parte incrível – reage à estímulos externos. E os estímulos responsáveis por uma maior eficácia da telomerase são os mesmo que hoje são considerados responsáveis por uma vida qualitativa e quantitativamente maior.

5. Exemplos positivos: i) dieta, estudos em ratos apontam que a redução calórica em 30% implica num aumento da longevidade também de 30%, regra que vale para o ser humano, mas não na mesma proporção; ii) atividade física; iii) controle do sono; iv) (minha querida) meditação; v) a qualidade de nossas relações sociais[1]. Exemplos do que enfraquece a ação da telomerase: isolamento social, ou seja, o inverso da presença de laços sociais qualitativos, e também pressão alta, diabetes, colesterol, cigarro, álcool e o sedentarismo.

Que tal batizar seus próximos cachorros como Telômero e Telomerase? Podem ser nomes não exatamente bonitos, mas pode atrair gente bacana.Nossa, que nomes legais! Esse cara/essa moça sabe o que é importante.”

6. Acerca do envelhecimento, Fabiano conclui que envelhecer bem não é um acidente; é questão de uma vida equilibrada, de construir e manter um cotidiano que privilegie uma rotina saudável em detrimento de hábitos (literalmente) destrutivos.

7. O compilado feito pela Casa do Saber muda o tópico para tipos de memória. Segundo a neurologia, existem vários tipos de memória. Uma distinção mais clara delas ocorreu somente a partir dos anos de 1950, com estudos envolvendo o paciente H.M. (Henry Molaison)[2], que teve o hipocampo removido como última medida para minimizar os ataques epiléticos que sofria desde um traumatismo craniano sofrido ainda na infância.

8. Uma das consequências da cirurgia de H.M. foi que ele não conseguia reter nenhuma informação nova por muito tempo, ao passo que suas memórias passadas, de antes da cirurgia, persistiram até o fim de sua vida. Além disso, em tarefas que envolvia um desenho fixo, H.M. sempre se surpreendia com o desenho apesar de tê-lo feito várias vezes, mas, por outro lado, aperfeiçoava, sem ter consciência disso, os traços do “novo” desenho com o tempo. H.M. também era submetido à estímulos que efetivamente influenciavam seu comportamento, mas que ele jamais se lembrava de os ter recebido.

9. Assim, foi a partir dos estudos com H.M. que surgiu a distinção entre memória consciente, subdividida em curto e longo prazo, e inconsciente, responsável, por exemplo, pela habituação.

10. Novo tópico, agora sobre o Alzheimer. A OMS estima que o Brasil será o país com a maior incidência (número de casos novos em relação ao número da população de risco) e prevalência (número total de casos em relação à toda a população) de Alzheimer no mundo. Sobre a distinção entre incidência e prevalência segundo a epidemiologia, conferir vídeo abaixo:


11. Hoje sabe-se que há uma proporção maior de doentes desse mal em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Isso ocorre porque os fatores que predispõe ao Alzheimer são diretamente relacionados com a natureza da sociedade que o indivíduo está imerso. Trata-se da doença de uma sociedade e não apenas um aleatório risco genético.

12. Estima-se que 50% dos casos de Alzheimer não ocorreriam se as pessoas doentes tivessem feito da vida algo diverso do que fizeram. E esse fazer envolve tanto ações individuais como políticas de Estado voltadas para a prevenção. Exemplos: i) aprender uma segunda língua retarda o aparecimento da doença em 5 anos; ii) atividade física regular reduz em 50% a chance de se ter essa doença; iii) não comer carboidrato simples reduz em 30%; iv) controlar a obesidade, hipertensão e dislipidemia (colesterol) também é relevante. Dessa forma, toda pessoa tem em si a possibilidade de se prevenir acerca do Alzheimer, tomando para si a possibilidade de cambiar os fatores modificáveis[3].

13. Seguindo na sucessão de tópicos, agora Moulin fala sobre a importância do sono. Sono “é o processo pelo qual a plasticidade do cérebro é possível”. O homem e a formiga são as únicas espécies que habitam todo o planeta Terra, no entanto, o inseto teve que se especializar em quatorze mil espécies para se fazer presente ao passo que o homo sapiens, sapiens é um só.

14. Essa adaptação do homem só foi possível porque é durante o sono que o cérebro seleciona as memórias relevantes (para a sobrevivência) e descarta as demais, se moldando segundo as necessidades que vão surgindo. A diferença de sono entre bebês, crianças e idosos se justifica pela plasticidade do cérebro, que é maior ao nascer e vai diminuindo ao longo da vida. Ademais, as queixas de atenção e memória daqueles que dormem mal se explicam também pelo mecanismo da plasticidade cerebral.

15. Ainda sobre a relevância do sono, descobriu-se recentemente que o cérebro possui sistema linfático, sistema responsável por coletar as impurezas da circulação e manter o funcionamento das defesas do organismo. A demora na descoberta ocorreu porque esse sistema linfático no cérebro só funciona a noite. Exemplo dessas impurezas no cérebro são as proteínas que, acumuladas, respondem pelo Alzheimer, Parkinson e outras doenças.

16. Por fim, Moulin arremata desconstruindo o mito da dualidade entre corpo e mente, de raiz platônica e aristotélica, e que moldou o cristianismo[4]. Hoje sabe-se que corpo e mente são um só, absolutamente interdependentes: são um sistema imerso num meio qualquer (para exemplificar, conferir parágrafo 4 & 5 sobre a resposta da telomerase à estímulos externos). Não se dissocia a saúde de um da saúde do outro. Trata-se de verdadeira “dinâmica do corpo com o cérebro e do cérebro com o ambiente.

Eis a síntese do vídeo intitulado “Envelhecer, memória e a importância do sono” de Fabiano Moulin.
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[1] Sou obrigado a citar duas referências sólidas que conheço a esse respeito: o TED que explana o chamado “Estudo Harvard” - https://www.youtube.com/watch?v=q-7zAkwAOYg – e o livro Solidão, escrito por Cacioppo. Ambos são contundentes ao afirmarem que o aspecto mais relevante para uma boa vida é o volume de laços sociais qualitativos do indivíduo: família, cônjuge, amigos genuínos, trabalho, igreja, vizinhos, voluntariado. Em síntese: sensação de companhia, pertencimento e utilidade. Importante destacar que o oposto, a solidão, é o elemento mais pernicioso para uma existência predominantemente sadia. 

[2] Eu que não sou da área posso também atestar a relevância história desse paciente, pois já encontrei referências a ele em três livros: i) o beste seller O Poder do Hábito; ii) Como Aprendemos, de Benedict Carey; iii) Memória, de Jonathan K. Foster. “A evolução clínica de H.M. trouxe lições fundamentais. Sobretudo porque a equipe médica que o acompanhou teve o privilégio de dispor de um laboratório vivo para testes e experiências, ao longo de 55 anos. Foi possível concluir que existem diferentes tipos de memórias, e que elas podem ser processadas de modo consciente e inconsciente. Descobriu-se, também, que as memórias não estão dispersas difusamente no cérebro, como se acreditava. Áreas cerebrais distintas e específicas estão envolvidas nos diferentes tipos e estágios da formação e consolidação da memória.” Fonte dessa citação e mais sobre H.M. em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-paciente-hm/ 

[3] Sobre a questão i) do carboidrato simples, em especial o açúcar; ii) o Brasil enquanto país em desenvolvimento, com grande população de pobres; iii) e a negligência de políticas públicas de educação alimentar (fora o lobby das empresas de alimentos nada saudáveis): conferir a (longa) e incrível matéria do New York Times feita no Brasil intitulada “Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food”: https://www.nytimes.com/2017/09/16/health/brasil-junk-food.html
 
[4]Todo sistema cristão e posteriormente a filosofia de Descartes foram influenciados por esse pensamento. A alma como guia do corpo, sua mestra, condutora. O corpo como “morada da alma”, algo perecível, até mesmo sujo, descartável, pecador, inferior. Desta forma a consciência estava salva, a religião cristã também. Ainda hoje estas ideias correspondem à visão da maioria das pessoas.” Fonte: https://razaoinadequada.com/2012/12/29/esboco-para-uma-contra-historia-da-psicologia-espinosa/

27 de março de 2019

Conservadorismo, rupturas e novas configurações de família - Belinda Mandelbaum - Casa do Saber

Síntese estendida do vídeo de 7m08s de Belinda Mandelbaum publicado em 26 de março de 2019 pelo canal Casa do Saber.

1. Até o final do século XIX, a família era considerada uma instituição natural, uma representação na Terra da ordenação divina. Tratar-se-ia de um modelo eterno, não suscetível de modificação pelas pessoas e o que fosse diferente desse padrão era cunhado como transgressor.

2. A premissa fundamental lançada por Belinda Mandelbaum é de que partir de estudos antropológicos e das ciências sociais, iniciados justamente no final do século XIX, ficou evidenciado que a família na verdade é uma instituição social, uma ordenação de caráter histórico que: i) se transforma no tempo, porque o avanço dos séculos abrigou múltiplos padrões de família; ii) e se transforma também no espaço, porque diferentes lugares na Terra, num mesmo momento, possuem diversas configurações familiares.

3. No entanto, atualmente a representação da família enquanto instituição natural segue presente em vários setores da sociedade, inclusive, claro, nos comentários do vídeo no próprio YouTube. Ah, como o anonimato garante a todos dizer qualquer besteira sem passar vergonha:


4. Marco Túlio falando: a manutenção dessa visão natural de família, especialmente no imaginário das pessoas, pode trazer uma sensação de segurança para muitos indivíduos na medida que uma ordenação rígida é capaz de apaziguar corações angustiados pela incerteza ou falta de objetivos. A ordem tolhe a liberdade, esmaga a subjetividade, mas traz a segurança de um caminho reto. Desse modo, há quem prefira uma existência padronizada ou ao menos desejar compreendê-la como se assim o fosse.

5. No atual momento brasileiro de ascensão do conservadorismo, há um destaque para padrões mais rígidos de configuração familiar. Belinda ressalta o projeto do Estatuto da Família (inteiro teor em .pdf neste link), que tramita no Congresso Nacional (atualmente parado no Senado) e, quando proposto em 2013, definia a família “como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. Ou seja, família só seria o arranjo a partir de um casal heterossexual ou entre um dos pais e seus filhos.

6. No entanto, se não bastasse os estudos citados (parágrafo 2), os próprios dados demográficos no Brasil desde 2006 afirmam que sequer 50% dos arranjos familiares nas casas brasileiras correspondem à limitada definição de família buscada por parte de nosso bem qualificado – a nossa imagem e semelhança - Congresso Nacional.

7. Existe a prevalência da diversidade na. configuração familiar, como exemplo: i) famílias estendidas, incluindo avós, tios, primos ou outros parentes; ii) famílias monoparentais, chefiadas predominantemente por mulheres (mais de 25% do total das famílias com filhos).


8. Além disso, especialmente ao longo do século XX a formação das famílias passou a se pautar muito mais pelo desejo e afeto dos envolvidos, com ou sem ligação consanguínea, do que por um modelo rígido. Trata-se da primazia dos anseios individuais em detrimento de uma imposição extrínseca por parte do Estado, da Igreja ou de valores patriarcais. Se cada indivíduo é uno, é natural que múltiplas sejam as possibilidades de configuração daquilo que alguém possa chamar por família.

Seguramente a senhora Eleanor Abernathy, a louca dos gatos, tem para si que sua família é ela e seus gatos. Como discordar dessa simpática e cativante pessoa?


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Eis a síntese do vídeo intitulado “Conservadorismo, rupturas e novas configurações de família” de Belinda Mandelbaum.

Queridos amiguinhos, ler a justificação do Estatuto da Família é um verdadeiro show de horrores.

São diversas essas questões [que ameaçam a família]. Desde a grave epidemia das drogas, que dilacera os laços e a harmonia do ambiente familiar, à violência doméstica, à gravidez na adolescência, até mesmo à desconstrução do conceito de família, aspecto que aflige as famílias e repercute na dinâmica psicossocial do indivíduo (...) Uma família equilibrada, de autoestima valorizada e assistida pelo Estado é sinônimo de uma sociedade mais fraterna e também mais feliz. Por cultivar essa crença, submeto à apreciação dos nobres pares o presente projeto de lei que, em síntese, institui o Estatuto da Família.

O grifo e sublinhado não meus. Não deu para me conter. Notem que a elaboração do Estatuto da Família é baseada numa crença. Numa crença amiguinhos. Não são estudos da psicologia, ciências sociais, antropologia ou mera constatação estatística pelo IBGE. Observem que o mais raso senso comum, uma crença, um preconceito se torna a voz da maioria e busca nortear as políticas públicas.

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25 de março de 2019

Os perfis psicológicos de quem é de direita e de quem é de esquerda - Luiz Hanns - Casa do Saber

Síntese estendida do vídeo de 13m25s de Luiz Hanns publicado em 29 de novembro de 2018 pelo canal Casa do Saber.

Acredito como bastante válida a discussão lançada nesse vídeo – independentemente de ser ou não período eleitoral ou de vivermos ou não numa época polarizada – porque o pensamento que se desenvolve nele caminha para a compreensão e, consequentemente, para a tolerância frente ao diferente no que toca às preferências políticas de cada um. Vamos ao que é dito no vídeo:

1. Na análise dos perfis psicológicos, Hanns exclui as pessoas de ambos os espectros políticos que possuam um viés radical ou fanático. Seu objeto volta-se para a maioria dos eleitores que possuem uma preferência, uma simpatia por partidos mais à esquerda – socialistas e sociais democratas – ou mais à direita, com enfoque conservador, tradicionalista e cristão democrata.

2. Antes dessa análise, vale também ressaltar que um dos motivos que direciona os votos do eleitorado é o cenário de crise, quando a população tende a culpabilizar a situação e votar na oposição. Como exemplo, basta observar a recorrente guinada na preferência do eleitor em contextos de um governo que perdura por algum tempo e se vê marcado por corrupção ou incompetência. Esse governo tende “a se queimar” e cai junto com ele – por um tempo – sua (suposta) ideologia.

3. Contudo, independentemente de dessas circunstâncias oscilantes que fazem a preferência do voto da população mudar entre diferentes correntes políticas, há pesquisas da psicologia e neurociência que apontam para determinados perfis de pessoas que tenderão a se identificar mais com correntes de direita ou de esquerda. Trata-se mais de uma orientação psicológica (fixa) do que circunstancial (variável).

4. O cerne argumentativo de Luiz Hans parte de uma pesquisa baseada em psicologia evolutiva, animal e social, publicada em 1963, envolvendo populações de cinco continentes diferentes e que, apesar da multiplicidade de países estudados, apresentou resultados similares.

5. Segundo essa pesquisa, a inclinação por se simpatizar por uma orientação política mais a direita ou mais a esquerda deriva da interpretação de cinco fontes diferentes de condutas com características potencialmente polarizadoras. A primeira delas seria a compaixão, assim entendida como a tendência a auxiliar alguém necessitado ou ferido e, sua outra vertente, o despertar de um sentimento de ódio por quem causou essa necessidade que agora precisa de ajuda.

6. A segunda fonte seria a polaridade ligada à justiça (distributiva), que pode se associar à noção de meritocracia – cada um tem direito àquilo que produziu, ao resultado de sua ação – ou a uma noção de que cabe a pessoa um quinhão proporcional ao seu esforço. Note que esforço não é sinônimo de resultado. Posso escrever muitos textos neste blog gastando horas para isso (esforço), mas muito provavelmente seu alcance (resultado) será pequeno, não passará de alguns amigos meus. Tratar-se-ia de uma injustiça?

Em tempo: diante dos lamentos de Maurílio e segundo os termos peremptórios de Rogerinho do Ingá, caso seu perfil psicológico não se alinhe com a meritocracia, então só restará um caminho: tem que acabar com a justiça!

7. A terceira fonte potencialmente polarizadora seria a noção de pertencimento eidentidade. Há uma tendência natural do ser humano em agrupar-se em tribos, assim entendido o alinhamento com determinadas pessoas ou grupos a partir de gostos em comum:  família, trabalho, igreja, time de futebol... Nesse ritmo, como forma de realçar a força do grupo, existem pessoas que tendem a rejeitar os grupos de que não fazem parte (forasteiro enquanto ameaça). Mas há também os que se interessam por conhecer os outros grupos (forasteiro enquanto objeto de curiosidade ou mesmo de tesão). 

Noutros termos, há os héteros que prefiram He-Man; outros estão mais propensos a ter curiosidade em conhecer Steven Universe.

8. A quarta fonte é o respeito à ordem e à autoridade. Algum grau de normatividade é necessário pra reger a vida em grupo. Há os que sentem necessidade de uma maior ordenação e, por outro lado, existem pessoas que buscam uma maior liberdade, se sentindo sufocadas pelo “excesso” de regras.

9. A última fonte estudada nessa pesquisa de 1963 é a virtude e a pureza. Refere-se à como as pessoas tratam os tabus dos grupos aos quais pertencem, suas regras gerais de proibição de natureza essencialmente moral. Aqui as pessoas podem se posicionar pela obediência aos tabus ou pela sua ruptura.
 
Existem os que podem se chocar com o amor de Julinho & Maurílio; mas há também os que torcem pelo casal.
10. Uma vez explanadas cada uma das cinco fontes de conduta polarizadoras, fica claro que pessoas alinhadas mais com partidos de esquerda tendem: i) a valorizar compaixão, defendendo a intervenção do Estado na vida do indivíduos fracos; ii) a buscar uma justiça que preze pela valorização do esforço; iii) a estimular a diversidade em detrimento da coesão de grupos rígidos; iv) a enxergar a autoridade como uma ameaça à liberdade; v) a desdenhar da manutenção da virtude e pureza.

11. Por outro lado, eleitores mais à direita têm verdadeira inversão em relação ao quadro apontado no parágrafo acima. Por exemplo, a noção identitária é muito forte, caminhando, quanto ao diferente, muito mais para a mera tolerância do que para a integração. Já uma autoridade forte é vista como inexorável para a paz social. A compaixão existe, mas tende a ficar restrita aos membros do grupo.

12. A partir de toda essa visão geral, note que a orientação partidária a direita ou a esquerda é a posteriori em relação a como o indivíduo se posiciona em relação às cinco fontes de polarização citadas. Ou seja, primeiro a coletividade se organizou a partir dessas fontes para depois fundar ou se identificar com determinada corrente ideológica.

13. Luiz Hans passa a citar outros testes. No curioso Teste do Cachorrinho, se identificou que, uma vez oferecido para a adoção dois cachorros com perfis bem distintos – um dócil e brincalhão e outro obediente e companheiro -, eleitores de esquerda se identificam mais com o primeiro e os de direita, com o segundo.

14. Numa pesquisa neurocientífica, descobriu-se que a amígdala – área ligada à percepção do perigo, ao medo e à respectiva proteção ante a esses temores – dos eleitores mais a direita possui um tamanho maior do que a dos eleitores mais a esquerda. Quanto maior a sensação de medo, maior o clamor por autoridade, maior é o receio frente ao diferente.

15. O último trabalho científico explanado por Luiz Hanns foi Teste do Nojo, que consistia em submeter as pessoas avaliadas à cheiros e imagens tidas geralmente por desagradáveis. A rejeição dos eleitores de direita diante dessa exposição foi maior do que a dos eleitores de esquerda.

16. Por fim, Hanns conclui com uma reflexão bastante conciliadora: as ideias preconizadas por partidos tanto mais a direita quanto mais a esquerda são essenciais para a coesão social, pois existem momentos que os agrupamentos sociais demandam uma maior dose de regras e obediência à autoridade para sobreviver e há momentos que a prevalência de ideias mais a esquerda (conferir parágrafo 10) se fazem necessárias ou são causa do florescimento daquele agrupamento. “Ambos os modelos são importantes, se alternam e fazem sentido."

Está concluída a síntese do vídeo intitulado “Os perfis psicológicos de quem é de direita e de quem é deesquerda” de Luiz Hanns.