Síntese estendida do vídeo de 9m08s de Mário Eduardo Costa publicado em 08 de abril de 2019 pelo canal
Casa do Saber. O autor é médico psiquiatra desde 1986, com mestrado, doutorado, pós-doutorado
e dois títulos de livre-docência: Université
Provence Aix Marseille e UNICAMP. Mais dados, conferir o lattes.
Cuida-se de uma discussão filosófica sobre a ideia de
loucura, dialogando, mas transcendendo, com as estritas definições dogmáticas
da psiquiatria acerca do assunto.
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1. Loucura é termo polissêmico. Segundo a perspectiva médica, é doença mental
caracterizada por uma situação destrutiva do funcionamento da mente e da
maneira do indivíduo se inserir na cultura e na sociedade.
2. A loucura também pode ser observada
segundo um viés romântico, como
forma de enfrentar o cotidiano para além dos parâmetros vistos socialmente como
usuais, seria um modo de agir libertador e/ou inspirador. O autor não usa esta
expressão, mas uma ação corajosa, que
rompe com os modelos de até então, pode muito bem ser vista, especialmente
antes de alcançar o reconhecimento, como uma ação louca.[1]
Escolheu estudar cinema? É louco. Largou carreira na advocacia para ser atriz? Perdeu totalmente a cabeça.
3. Em seguida, Mário Eduardo fala da dimensão trágica da loucura, do gesto de loucura, da loucura de um ato só. E
para tal cita o personagem Ájax de
Sófocles (que este que vos escreve – se é que possui algum leitor - desconhecia
completamente até então). Trata-se de uma história cujo protagonista toma uma
atitude extrema, bárbara, pontual e equivocada a partir de uma interpretação direcionada
por um sentimento de paixão. Basicamente ilustra a expressão “cego de raiva”.
4. Essas perspectivas de loucura encaminham
para dois vieses de investigação: i)
loucura versus realidade; ii) a capacidade do indivíduo de lidar
com suas próprias tendências e paixões e o potencial delas para gerar um
desequilíbrio no próprio sujeito.
5. Sobre o primeiro viés, existe a noção de
que é a realidade que serve como parâmetro para definir o que seria loucura. “Temos a tendência de imaginar que a realidade é simplesmente a evidência disso que está aí.” Dessa forma, o
autor afirma que realidade e real são conceitos diversos. Realidade
seria um recorte intuitivo e coletivamente reconhecido como verdadeiro,
extraído de algumas das percepções possíveis do real. Trata-se de um “protocolo
implícito, tácito de leitura do mundo”. De tal sorte que a loucura, por sua vez,
seria a interpretação que destoasse dessa forma de ver as coisas.
6. Como exemplo do que pode ser realidade,
Mário Eduardo cita a crença na intervenção dos deuses na vida das pessoas e a
possibilidade de alguém ser tomado, possuído por alguma entidade. Ambos os
fenômenos, dependendo do contexto coletivamente partilhado, podem ser encarados
como manifestação da realidade ou da loucura. Possessão parece-me que hoje
seria reconhecida como loucura na maioria do planeta; já a crença em deus segue
firme para muitas pessoas. No auge da Comissão Nacional da Verdade, que
investigou alguns dos crimes do período militar, falar em 1964 como revolução
poderia ser visto como cegueira, loucura; já em 2019...
7. Outro exemplo descrito é o filme O sexto sentido[2].
Nele, o real é um mundo que é também habitado por espíritos, no entanto, como
apenas o menino vê os mortos, ou seja, não compartilha com mais ninguém aquela
percepção, aquele recorte do real, o garoto é tratado como louco. Mas, a rigor,
ele seria o único a conhecer o que de fato é o real. “Ele era o único capaz de ler o real não cegado pela realidade” (coletivamente aceita). Desconfio que Matrix possa ser interpretado, quanto a
questão de loucura versus realidade,
da mesma forma.
8. Dessa forma,
quais seriam os critérios que definiriam algo como realidade e, por
conseguinte, o que definiria uma interpretação do real como loucura, seja para
o bem (lado romântico, sem extremos), seja para o mal (lado médico e lado
trágico)?
9. Noutros temos, de que maneira se deve ter
com a loucura uma atitude realista? Uma vez que ela pode ser extremamente
destrutiva. Mas também, como se servir da loucura, como aproveitar as
potencialidades de uma visão divergente, capaz de produzir as mais variadas
obras criativas, conduzir a vida para destinos incríveis e revelar o real segundo
novas perspectivas? Como se beneficiar e evitar o desequilíbrio (segundo viés)?
![]() |
| Van Gogh: singularidade artística e limites da loucura |
Eis a síntese do vídeo intitulado As múltiplas definições de loucura de
Mario Eduardo Costa.
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[1] Para muitos, assumir o risco pode muito bem ser visto como um gesto de loucura. Nesse sentido, conferir o poema Mude, na voz de Antônio Abujamra: https://youtu.be/A2hk9jtL7WA O texto é de autoria de Edson Marques, mas a frase final – “Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!” é da bruxa Clarice Lispector, citando Georges Bernanos, numa crônica às vésperas do ano novo de 1969 (Todas as Crônicas. Rocco, 2018. Aprendendo a viver, pg. 184 – sim, eu tenho esse livro).
[2] Link
de O sexto sentido, atualmente em
cartaz na Netflix: https://www.netflix.com/br/title/26797528


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