1. Publicado em 2003, Amor
Líquido tem por objeto de estudo a fragilidade dos vínculos humanos e a
contradição intrínseca enfrentada pelo sujeito entre reforçar os laços –
segurança e tédio – ou mantê-los frouxos – insegurança e a abertura frente à
novas (e melhores) possibilidades.
2. Bauman, para definir quem seria o cidadão na líquida
sociedade moderna, recorre à obra O Homem
Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. Publicada
entre os anos de 1930 e 1943, seu protagonista, Ulrich, pessoa sem qualidades
próprias – seja por herança ou aquisição -, produz as que deseja ter, mas sem a
garantia de que perdurem para sempre, vez que o mundo habitado por ele se
encontra em rápida, incerta e constante transformação.
3. Desse modo, o homem moderno é alguém sem vínculos
imutáveis. Suas qualidades herdadas pouco significam, e as que adquire pela
vida podem perder a relevância com o correr do tempo. Além disso, a
substituição de uma qualidade por outra não garante permanência; apenas
adaptação temporária.
4. Definido o cidadão, marcado por uma
individualização simultaneamente livre e angustiante, a delimitação do autor
para relacionamento humano parte da seguinte ambivalência:
-
a busca pela segurança de um convívio estável, marcado pelo apoio inclusive em
momentos de aflição;
- essa estabilidade
traz consigo tensões que não se tolera, além de restringir a liberdade de
escolha para outros relacionamentos.
5. Partindo de uma regra de Heidegger – “que as coisas só se revelam à consciência por meio da
frustração que provocam”, ou seja, de que as coisas só são sentidas quando nos
fazem falta – Bauman ressalta que o foco
dado atualmente na satisfação que as relações podem nos trazer se trata de um
sintoma de que essas relações não estão nos satisfazendo.
6. Essa ambivalência no potencial dos relacionamentos –
capaz de alimentar simultaneamente esperanças e temores – gera uma paralisia,
uma incapacidade de agir do indivíduo. Para descrever a busca, agora orientada,
pela satisfação nos relacionamentos, Bauman lista o “boom do aconselhamento”
(lembremos, o livro foi escrito em 2003, distante da escolha múltipla, anônima
e segura do Tinder e similares).
7. O aconselhamento citado converge para uma tênue
conciliação a partir da referida ambivalência dos relacionamentos. De um lado,
evitar expectativas acerca de um relacionamento de longo prazo, de outro,
deixar sempre a porta aberta para novas relações. Paixão seria “desfrutar
coisas novas e diferentes” ao mesmo tempo que se pode descartar aquilo que já
não agrada de maneira plena.
8. Nesse momento, o autor não deixa claro, mas essa
estratégia de enfrentamento para os relacionamentos segue a mesma lógica do consumo,
com a renovação contínua da oferta de produtos e o descarte de tudo aquilo que
não é mais funcional ou simplesmente se tornou obsoleto.
9. Como forma de deixar leve o peso
dos relacionamentos, o autor insere a ideia – não sei se bem traduzida – de redes e conectividade:
- rede
envolve tanto a conexão quanto a desconexão, ambas são escolhas legítimas e
prescindem de um acordo mútuo de rompimento, pois “sempre se pode apertar a
tecla de deletar”. Tratar-se-ia de uma postura inteligente, limpa e fácil de
usar. São as relações virtuais.
- relações exigem o
engajamento mútuo e excluem a opção da falta de compromisso. Trazem consigo uma
carga de lentidão e peso. São as relações reais.
10. No contexto atual, as relações virtuais se tornaram a
regra e estabeleceram um padrão que permeia todos os outros relacionamentos.
Agora, uma vez que “se é traído pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade”,
de tal sorte que a fragilidade dos laços impõe a velocidade na criação de novos
elos (igualmente frágeis). Assim, o outrora almejado movimento de um
relacionamento para outro se tornou uma necessidade, verdadeira “tarefa
cansativa”. Se é livre para escolher, mas corra, senão outrem aproveitará as
oferta
Concluída a síntese do prefácio, vê-se que modernidade implica em liberdade que, em matéria de
relacionamentos, elevou a perspectiva da escolha a um imperativo permanente.
Você tem a liberdade de escolher o par que lhe aprouver, assim como dele se desvencilhar
quando melhor entender.
Mas a recíproca é verdadeira.
Nesse ritmo, a busca de laços seguros perde lugar para a
escolha de múltiplos laços, verdadeira rede de conexões múltiplas, variáveis e
angustiantes. Não se apegue, porque ali do lado tem oferta bem melhor. Não confie, porque você pode ser trocado da noite para o dia. Ou na mesma noite. Não se desespere, quem sabe na próxima você se sai melhor.
