20 de março de 2019

Bauman - Amor Líquido - Prefácio


1. Publicado em 2003, Amor Líquido tem por objeto de estudo a fragilidade dos vínculos humanos e a contradição intrínseca enfrentada pelo sujeito entre reforçar os laços – segurança e tédio – ou mantê-los frouxos – insegurança e a abertura frente à novas (e melhores) possibilidades.
2. Bauman, para definir quem seria o cidadão na líquida sociedade moderna, recorre à obra O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. Publicada entre os anos de 1930 e 1943, seu protagonista, Ulrich, pessoa sem qualidades próprias – seja por herança ou aquisição -, produz as que deseja ter, mas sem a garantia de que perdurem para sempre, vez que o mundo habitado por ele se encontra em rápida, incerta e constante transformação.
3. Desse modo, o homem moderno é alguém sem vínculos imutáveis. Suas qualidades herdadas pouco significam, e as que adquire pela vida podem perder a relevância com o correr do tempo. Além disso, a substituição de uma qualidade por outra não garante permanência; apenas adaptação temporária.
4. Definido o cidadão, marcado por uma individualização simultaneamente livre e angustiante, a delimitação do autor para relacionamento humano parte da seguinte ambivalência:
- a busca pela segurança de um convívio estável, marcado pelo apoio inclusive em momentos de aflição;
- essa estabilidade traz consigo tensões que não se tolera, além de restringir a liberdade de escolha para outros relacionamentos.
5. Partindo de uma regra de Heidegger – “que as coisas só se revelam à consciência por meio da frustração que provocam”, ou seja, de que as coisas só são sentidas quando nos fazem falta – Bauman ressalta que o foco dado atualmente na satisfação que as relações podem nos trazer se trata de um sintoma de que essas relações não estão nos satisfazendo.
6. Essa ambivalência no potencial dos relacionamentos – capaz de alimentar simultaneamente esperanças e temores – gera uma paralisia, uma incapacidade de agir do indivíduo. Para descrever a busca, agora orientada, pela satisfação nos relacionamentos, Bauman lista o “boom do aconselhamento” (lembremos, o livro foi escrito em 2003, distante da escolha múltipla, anônima e segura do Tinder e similares).
7. O aconselhamento citado converge para uma tênue conciliação a partir da referida ambivalência dos relacionamentos. De um lado, evitar expectativas acerca de um relacionamento de longo prazo, de outro, deixar sempre a porta aberta para novas relações. Paixão seria “desfrutar coisas novas e diferentes” ao mesmo tempo que se pode descartar aquilo que já não agrada de maneira plena.
8. Nesse momento, o autor não deixa claro, mas essa estratégia de enfrentamento para os relacionamentos segue a mesma lógica do consumo, com a renovação contínua da oferta de produtos e o descarte de tudo aquilo que não é mais funcional ou simplesmente se tornou obsoleto.
9. Como forma de deixar leve o peso dos relacionamentos, o autor insere a ideia – não sei se bem traduzida – de redes e conectividade:
- rede envolve tanto a conexão quanto a desconexão, ambas são escolhas legítimas e prescindem de um acordo mútuo de rompimento, pois “sempre se pode apertar a tecla de deletar”. Tratar-se-ia de uma postura inteligente, limpa e fácil de usar. São as relações virtuais.
- relações exigem o engajamento mútuo e excluem a opção da falta de compromisso. Trazem consigo uma carga de lentidão e peso. São as relações reais.
10. No contexto atual, as relações virtuais se tornaram a regra e estabeleceram um padrão que permeia todos os outros relacionamentos. Agora, uma vez que “se é traído pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade”, de tal sorte que a fragilidade dos laços impõe a velocidade na criação de novos elos (igualmente frágeis). Assim, o outrora almejado movimento de um relacionamento para outro se tornou uma necessidade, verdadeira “tarefa cansativa”. Se é livre para escolher, mas corra, senão outrem aproveitará as oferta
Concluída a síntese do prefácio, vê-se que modernidade implica em liberdade que, em matéria de relacionamentos, elevou a perspectiva da escolha a um imperativo permanente. Você tem a liberdade de escolher o par que lhe aprouver, assim como dele se desvencilhar quando melhor entender.
Mas a recíproca é verdadeira.
Nesse ritmo, a busca de laços seguros perde lugar para a escolha de múltiplos laços, verdadeira rede de conexões múltiplas, variáveis e angustiantes. Não se apegue, porque ali do lado tem oferta bem melhor. Não confie, porque você pode ser trocado da noite para o dia. Ou na mesma noite. Não se desespere, quem sabe na próxima você se sai melhor.