27 de março de 2019

Conservadorismo, rupturas e novas configurações de família - Belinda Mandelbaum - Casa do Saber

Síntese estendida do vídeo de 7m08s de Belinda Mandelbaum publicado em 26 de março de 2019 pelo canal Casa do Saber.

1. Até o final do século XIX, a família era considerada uma instituição natural, uma representação na Terra da ordenação divina. Tratar-se-ia de um modelo eterno, não suscetível de modificação pelas pessoas e o que fosse diferente desse padrão era cunhado como transgressor.

2. A premissa fundamental lançada por Belinda Mandelbaum é de que partir de estudos antropológicos e das ciências sociais, iniciados justamente no final do século XIX, ficou evidenciado que a família na verdade é uma instituição social, uma ordenação de caráter histórico que: i) se transforma no tempo, porque o avanço dos séculos abrigou múltiplos padrões de família; ii) e se transforma também no espaço, porque diferentes lugares na Terra, num mesmo momento, possuem diversas configurações familiares.

3. No entanto, atualmente a representação da família enquanto instituição natural segue presente em vários setores da sociedade, inclusive, claro, nos comentários do vídeo no próprio YouTube. Ah, como o anonimato garante a todos dizer qualquer besteira sem passar vergonha:


4. Marco Túlio falando: a manutenção dessa visão natural de família, especialmente no imaginário das pessoas, pode trazer uma sensação de segurança para muitos indivíduos na medida que uma ordenação rígida é capaz de apaziguar corações angustiados pela incerteza ou falta de objetivos. A ordem tolhe a liberdade, esmaga a subjetividade, mas traz a segurança de um caminho reto. Desse modo, há quem prefira uma existência padronizada ou ao menos desejar compreendê-la como se assim o fosse.

5. No atual momento brasileiro de ascensão do conservadorismo, há um destaque para padrões mais rígidos de configuração familiar. Belinda ressalta o projeto do Estatuto da Família (inteiro teor em .pdf neste link), que tramita no Congresso Nacional (atualmente parado no Senado) e, quando proposto em 2013, definia a família “como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. Ou seja, família só seria o arranjo a partir de um casal heterossexual ou entre um dos pais e seus filhos.

6. No entanto, se não bastasse os estudos citados (parágrafo 2), os próprios dados demográficos no Brasil desde 2006 afirmam que sequer 50% dos arranjos familiares nas casas brasileiras correspondem à limitada definição de família buscada por parte de nosso bem qualificado – a nossa imagem e semelhança - Congresso Nacional.

7. Existe a prevalência da diversidade na. configuração familiar, como exemplo: i) famílias estendidas, incluindo avós, tios, primos ou outros parentes; ii) famílias monoparentais, chefiadas predominantemente por mulheres (mais de 25% do total das famílias com filhos).


8. Além disso, especialmente ao longo do século XX a formação das famílias passou a se pautar muito mais pelo desejo e afeto dos envolvidos, com ou sem ligação consanguínea, do que por um modelo rígido. Trata-se da primazia dos anseios individuais em detrimento de uma imposição extrínseca por parte do Estado, da Igreja ou de valores patriarcais. Se cada indivíduo é uno, é natural que múltiplas sejam as possibilidades de configuração daquilo que alguém possa chamar por família.

Seguramente a senhora Eleanor Abernathy, a louca dos gatos, tem para si que sua família é ela e seus gatos. Como discordar dessa simpática e cativante pessoa?


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Eis a síntese do vídeo intitulado “Conservadorismo, rupturas e novas configurações de família” de Belinda Mandelbaum.

Queridos amiguinhos, ler a justificação do Estatuto da Família é um verdadeiro show de horrores.

São diversas essas questões [que ameaçam a família]. Desde a grave epidemia das drogas, que dilacera os laços e a harmonia do ambiente familiar, à violência doméstica, à gravidez na adolescência, até mesmo à desconstrução do conceito de família, aspecto que aflige as famílias e repercute na dinâmica psicossocial do indivíduo (...) Uma família equilibrada, de autoestima valorizada e assistida pelo Estado é sinônimo de uma sociedade mais fraterna e também mais feliz. Por cultivar essa crença, submeto à apreciação dos nobres pares o presente projeto de lei que, em síntese, institui o Estatuto da Família.

O grifo e sublinhado não meus. Não deu para me conter. Notem que a elaboração do Estatuto da Família é baseada numa crença. Numa crença amiguinhos. Não são estudos da psicologia, ciências sociais, antropologia ou mera constatação estatística pelo IBGE. Observem que o mais raso senso comum, uma crença, um preconceito se torna a voz da maioria e busca nortear as políticas públicas.

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