25 de março de 2019

Os perfis psicológicos de quem é de direita e de quem é de esquerda - Luiz Hanns - Casa do Saber

Síntese estendida do vídeo de 13m25s de Luiz Hanns publicado em 29 de novembro de 2018 pelo canal Casa do Saber.

Acredito como bastante válida a discussão lançada nesse vídeo – independentemente de ser ou não período eleitoral ou de vivermos ou não numa época polarizada – porque o pensamento que se desenvolve nele caminha para a compreensão e, consequentemente, para a tolerância frente ao diferente no que toca às preferências políticas de cada um. Vamos ao que é dito no vídeo:

1. Na análise dos perfis psicológicos, Hanns exclui as pessoas de ambos os espectros políticos que possuam um viés radical ou fanático. Seu objeto volta-se para a maioria dos eleitores que possuem uma preferência, uma simpatia por partidos mais à esquerda – socialistas e sociais democratas – ou mais à direita, com enfoque conservador, tradicionalista e cristão democrata.

2. Antes dessa análise, vale também ressaltar que um dos motivos que direciona os votos do eleitorado é o cenário de crise, quando a população tende a culpabilizar a situação e votar na oposição. Como exemplo, basta observar a recorrente guinada na preferência do eleitor em contextos de um governo que perdura por algum tempo e se vê marcado por corrupção ou incompetência. Esse governo tende “a se queimar” e cai junto com ele – por um tempo – sua (suposta) ideologia.

3. Contudo, independentemente de dessas circunstâncias oscilantes que fazem a preferência do voto da população mudar entre diferentes correntes políticas, há pesquisas da psicologia e neurociência que apontam para determinados perfis de pessoas que tenderão a se identificar mais com correntes de direita ou de esquerda. Trata-se mais de uma orientação psicológica (fixa) do que circunstancial (variável).

4. O cerne argumentativo de Luiz Hans parte de uma pesquisa baseada em psicologia evolutiva, animal e social, publicada em 1963, envolvendo populações de cinco continentes diferentes e que, apesar da multiplicidade de países estudados, apresentou resultados similares.

5. Segundo essa pesquisa, a inclinação por se simpatizar por uma orientação política mais a direita ou mais a esquerda deriva da interpretação de cinco fontes diferentes de condutas com características potencialmente polarizadoras. A primeira delas seria a compaixão, assim entendida como a tendência a auxiliar alguém necessitado ou ferido e, sua outra vertente, o despertar de um sentimento de ódio por quem causou essa necessidade que agora precisa de ajuda.

6. A segunda fonte seria a polaridade ligada à justiça (distributiva), que pode se associar à noção de meritocracia – cada um tem direito àquilo que produziu, ao resultado de sua ação – ou a uma noção de que cabe a pessoa um quinhão proporcional ao seu esforço. Note que esforço não é sinônimo de resultado. Posso escrever muitos textos neste blog gastando horas para isso (esforço), mas muito provavelmente seu alcance (resultado) será pequeno, não passará de alguns amigos meus. Tratar-se-ia de uma injustiça?

Em tempo: diante dos lamentos de Maurílio e segundo os termos peremptórios de Rogerinho do Ingá, caso seu perfil psicológico não se alinhe com a meritocracia, então só restará um caminho: tem que acabar com a justiça!

7. A terceira fonte potencialmente polarizadora seria a noção de pertencimento eidentidade. Há uma tendência natural do ser humano em agrupar-se em tribos, assim entendido o alinhamento com determinadas pessoas ou grupos a partir de gostos em comum:  família, trabalho, igreja, time de futebol... Nesse ritmo, como forma de realçar a força do grupo, existem pessoas que tendem a rejeitar os grupos de que não fazem parte (forasteiro enquanto ameaça). Mas há também os que se interessam por conhecer os outros grupos (forasteiro enquanto objeto de curiosidade ou mesmo de tesão). 

Noutros termos, há os héteros que prefiram He-Man; outros estão mais propensos a ter curiosidade em conhecer Steven Universe.

8. A quarta fonte é o respeito à ordem e à autoridade. Algum grau de normatividade é necessário pra reger a vida em grupo. Há os que sentem necessidade de uma maior ordenação e, por outro lado, existem pessoas que buscam uma maior liberdade, se sentindo sufocadas pelo “excesso” de regras.

9. A última fonte estudada nessa pesquisa de 1963 é a virtude e a pureza. Refere-se à como as pessoas tratam os tabus dos grupos aos quais pertencem, suas regras gerais de proibição de natureza essencialmente moral. Aqui as pessoas podem se posicionar pela obediência aos tabus ou pela sua ruptura.
 
Existem os que podem se chocar com o amor de Julinho & Maurílio; mas há também os que torcem pelo casal.
10. Uma vez explanadas cada uma das cinco fontes de conduta polarizadoras, fica claro que pessoas alinhadas mais com partidos de esquerda tendem: i) a valorizar compaixão, defendendo a intervenção do Estado na vida do indivíduos fracos; ii) a buscar uma justiça que preze pela valorização do esforço; iii) a estimular a diversidade em detrimento da coesão de grupos rígidos; iv) a enxergar a autoridade como uma ameaça à liberdade; v) a desdenhar da manutenção da virtude e pureza.

11. Por outro lado, eleitores mais à direita têm verdadeira inversão em relação ao quadro apontado no parágrafo acima. Por exemplo, a noção identitária é muito forte, caminhando, quanto ao diferente, muito mais para a mera tolerância do que para a integração. Já uma autoridade forte é vista como inexorável para a paz social. A compaixão existe, mas tende a ficar restrita aos membros do grupo.

12. A partir de toda essa visão geral, note que a orientação partidária a direita ou a esquerda é a posteriori em relação a como o indivíduo se posiciona em relação às cinco fontes de polarização citadas. Ou seja, primeiro a coletividade se organizou a partir dessas fontes para depois fundar ou se identificar com determinada corrente ideológica.

13. Luiz Hans passa a citar outros testes. No curioso Teste do Cachorrinho, se identificou que, uma vez oferecido para a adoção dois cachorros com perfis bem distintos – um dócil e brincalhão e outro obediente e companheiro -, eleitores de esquerda se identificam mais com o primeiro e os de direita, com o segundo.

14. Numa pesquisa neurocientífica, descobriu-se que a amígdala – área ligada à percepção do perigo, ao medo e à respectiva proteção ante a esses temores – dos eleitores mais a direita possui um tamanho maior do que a dos eleitores mais a esquerda. Quanto maior a sensação de medo, maior o clamor por autoridade, maior é o receio frente ao diferente.

15. O último trabalho científico explanado por Luiz Hanns foi Teste do Nojo, que consistia em submeter as pessoas avaliadas à cheiros e imagens tidas geralmente por desagradáveis. A rejeição dos eleitores de direita diante dessa exposição foi maior do que a dos eleitores de esquerda.

16. Por fim, Hanns conclui com uma reflexão bastante conciliadora: as ideias preconizadas por partidos tanto mais a direita quanto mais a esquerda são essenciais para a coesão social, pois existem momentos que os agrupamentos sociais demandam uma maior dose de regras e obediência à autoridade para sobreviver e há momentos que a prevalência de ideias mais a esquerda (conferir parágrafo 10) se fazem necessárias ou são causa do florescimento daquele agrupamento. “Ambos os modelos são importantes, se alternam e fazem sentido."

Está concluída a síntese do vídeo intitulado “Os perfis psicológicos de quem é de direita e de quem é deesquerda” de Luiz Hanns.