Síntese estendida do vídeo de 7min18s de Cláudia Feitosa-Santana publicado em 14 de fevereiro de 2019
pelo canal Casa do Saber.
1. Nosso cérebro detesta incertezas, assim compreendidos os riscos, ambiguidades e dúvidas.
No entanto, negar essas incertezas caminha para a irresponsabilidade e o gatilho
fático desse sistema cognitivo, exemplificado por Cláudia Feitosa-Santana, foi
o “desastre” em Brumadinho.
2. A evolução do cérebro caminhou para maximizar certezas e minimizar incertezas, mas sem um compromisso com a verdade ou a retidão. Se nossos ancestrais ficassem na dúvida continuamente seriam devorados por seus predadores ou sequer sairiam de suas cavernas. Trata-se de um mecanismo que busca a eficiência e não a validade.
2. A evolução do cérebro caminhou para maximizar certezas e minimizar incertezas, mas sem um compromisso com a verdade ou a retidão. Se nossos ancestrais ficassem na dúvida continuamente seriam devorados por seus predadores ou sequer sairiam de suas cavernas. Trata-se de um mecanismo que busca a eficiência e não a validade.
3. Nesse ritmo, uma das formas de minimizar qualquer dos
tipos da incerteza é a negação. Porém,
indivíduos que negam determinada incerteza podem cair em um desastre na esfera,
a princípio, individual ou familiar. É o caso de se negar os riscos envolvidos
entre beber e dirigir. Pode ocorrer nada, uma multa... ou até a morte de uma ou
várias pessoas. Por sua vez, a negação coletiva da incerteza tem um potencial
de dano muito maior. Exemplos: Brumadinho em 2019, a bolha financeira de 2008,
o caso das fraudes da Enron em 2001.
4. Se no passado, negar a incerteza foi importante para a
sobrevivência da espécie, hoje tal postura não se justifica. E em parte não se
justifica pelo potencial de ação que hoje alguns grupos de pessoas, sobretudo
empresários e políticos, têm sobre muitas outras pessoas, sobre vários países e
até sobre todo o planeta.
5. No entanto, a população, de um modo geral, segue buscando
refúgio na ilusão da certeza, no “viés
da confirmação”, ao invés de enfrentar o medo que o incerto provoca. Viés
da confirmação nada mais é do que: i)
o favorecimento das informações que reforçam nossas crenças; ii) e a escolha por negar aquelas
informações que contradigam essas crenças. Tal mecanismo é um ciclo vicioso
porque negando a dúvida se instala o viés da confirmação, que negará mais ainda
a dúvida, agravando a miopia acerca da questão observada.
Prefiro não me arriscar, vou ficar aonde
estou. Gosto deste lugar, aqui não tem ninguém diferente de mim e espero que
assim continue.
6. Um ótimo exemplo do viés de confirmações – neste
parágrafo quem fala é Marco Túlio – é o momento que Sheldon, personagem de The Big Bang Theory, então com 9 anos,
desafia o pastor da sua cidade no Texas acerca de alguns aspectos da existência
de Deus. Note que o pastor ignora alguns fatos e distorce outros para seguir firme
com sua crença. O trecho de 1m50s adiante (por favor aguentem a dublagem), é do
terceiro episódio da primeira temporada da série Young Sheldon: https://youtu.be/x546zH9Eod8
7. Voltando para as palavras de Cláudia Feitosa-Santana, o
viés da confirmação e seu potencial destrutivo enquanto ciclo vicioso ajudar a
entender a manutenção (coletiva) “do mesmo sistema político falido, do mesmo
sistema financeiro e judiciário injustos” e a manutenção (individual) “do mesmo
emprego que detestamos ou do mesmo padrão de relacionamentos”. Assim, chama-se cegueira ética a negação da incerteza
que traz consigo um potencial de desastre.
8. Aguenta que o insight agora é de explodir: Gandhi (independência da Índia), Martin Luther King (direitos
iguais para as minorias) e John Lennon (cultura da paz) inspiraram multidões em
favor de mudanças que traziam consigo incertezas. O assassinato de cada um
deles pode ser visto como uma forma de combater a incerteza que cada uma das
ideias deles carregava.
9. Eis o mecanismo usual de aceitação das incertezas por
parte das pessoas: quando a energia gasta para manter determinada situação for
maior do que a energia gasta para muda-la então a incerteza é aceita e abandona-se a situação de outrora. Quer
saber, esse trabalho está tão horrível que vou procurar outra coisa.
10. Não obstante, esse modo (automático) de abraçamento da
incerteza precisa ser alterado porque “é
justamente na incerteza, além de enfrentar desastres, que nasce a criatividade”.
Como sempre dizia Antônio Abujamra em seu “Provocações”: a salvação é pelo risco.
11. A ação criativa se baseia no não saber, na descoberta
que a abertura para o incerto proporciona. Assim, é necessário lutar contra o
aparato evolutivo que hoje nos acompanha o qual preza tanto pela negação do
incerto.
Está concluída a síntese do
vídeo intitulado “Cegueira ética na origem das tragédias: da crise econômica a Brumadinho” de Cláudia
Feitosa-Santana.
Note que negar as mudanças
climáticas enquanto política dos governos mundo a fora – claro, há múltiplos interesses
econômicos envolvidos na manutenção do modelo econômico existente – é se fechar
para o incerto (como seria uma vida materialmente minimalista, ou um efetivo
desenvolvimento sustentável?) e abraçar a catástrofe.
Por fim, logo abaixo temos um exemplo
brasileiro de assassinato que buscou aniquilar uma incerteza:

