22 de março de 2019

Cegueira ética na origem das tragédias: da crise econômica a Brumadinho - Claudia Feitosa-Santana - Casa do Saber


Síntese estendida do vídeo de 7min18s de Cláudia Feitosa-Santana publicado em 14 de fevereiro de 2019 pelo canal Casa do Saber.

1. Nosso cérebro detesta incertezas, assim compreendidos os riscos, ambiguidades e dúvidas. No entanto, negar essas incertezas caminha para a irresponsabilidade e o gatilho fático desse sistema cognitivo, exemplificado por Cláudia Feitosa-Santana, foi o “desastre” em Brumadinho.

2. A evolução do cérebro caminhou para maximizar certezas e minimizar incertezas, mas sem um compromisso com a verdade ou a retidão. Se nossos ancestrais ficassem na dúvida continuamente seriam devorados por seus predadores ou sequer sairiam de suas cavernas. Trata-se de um mecanismo que busca a eficiência e não a validade.

3. Nesse ritmo, uma das formas de minimizar qualquer dos tipos da incerteza é a negação. Porém, indivíduos que negam determinada incerteza podem cair em um desastre na esfera, a princípio, individual ou familiar. É o caso de se negar os riscos envolvidos entre beber e dirigir. Pode ocorrer nada, uma multa... ou até a morte de uma ou várias pessoas. Por sua vez, a negação coletiva da incerteza tem um potencial de dano muito maior. Exemplos: Brumadinho em 2019, a bolha financeira de 2008, o caso das fraudes da Enron em 2001.

4. Se no passado, negar a incerteza foi importante para a sobrevivência da espécie, hoje tal postura não se justifica. E em parte não se justifica pelo potencial de ação que hoje alguns grupos de pessoas, sobretudo empresários e políticos, têm sobre muitas outras pessoas, sobre vários países e até sobre todo o planeta.

5. No entanto, a população, de um modo geral, segue buscando refúgio na ilusão da certeza, no “viés da confirmação”, ao invés de enfrentar o medo que o incerto provoca. Viés da confirmação nada mais é do que: i) o favorecimento das informações que reforçam nossas crenças; ii) e a escolha por negar aquelas informações que contradigam essas crenças. Tal mecanismo é um ciclo vicioso porque negando a dúvida se instala o viés da confirmação, que negará mais ainda a dúvida, agravando a miopia acerca da questão observada.

Prefiro não me arriscar, vou ficar aonde estou. Gosto deste lugar, aqui não tem ninguém diferente de mim e espero que assim continue.
6. Um ótimo exemplo do viés de confirmações – neste parágrafo quem fala é Marco Túlio – é o momento que Sheldon, personagem de The Big Bang Theory, então com 9 anos, desafia o pastor da sua cidade no Texas acerca de alguns aspectos da existência de Deus. Note que o pastor ignora alguns fatos e distorce outros para seguir firme com sua crença. O trecho de 1m50s adiante (por favor aguentem a dublagem), é do terceiro episódio da primeira temporada da série Young Sheldon: https://youtu.be/x546zH9Eod8

7. Voltando para as palavras de Cláudia Feitosa-Santana, o viés da confirmação e seu potencial destrutivo enquanto ciclo vicioso ajudar a entender a manutenção (coletiva) “do mesmo sistema político falido, do mesmo sistema financeiro e judiciário injustos” e a manutenção (individual) “do mesmo emprego que detestamos ou do mesmo padrão de relacionamentos”. Assim, chama-se cegueira ética a negação da incerteza que traz consigo um potencial de desastre.

8. Aguenta que o insight agora é de explodir: Gandhi (independência da Índia), Martin Luther King (direitos iguais para as minorias) e John Lennon (cultura da paz) inspiraram multidões em favor de mudanças que traziam consigo incertezas. O assassinato de cada um deles pode ser visto como uma forma de combater a incerteza que cada uma das ideias deles carregava.

9. Eis o mecanismo usual de aceitação das incertezas por parte das pessoas: quando a energia gasta para manter determinada situação for maior do que a energia gasta para muda-la então a incerteza é aceita e abandona-se a situação de outrora. Quer saber, esse trabalho está tão horrível que vou procurar outra coisa.
 
10. Não obstante, esse modo (automático) de abraçamento da incerteza precisa ser alterado porque “é justamente na incerteza, além de enfrentar desastres, que nasce a criatividade”. Como sempre dizia Antônio Abujamra em seu “Provocações”: a salvação é pelo risco.

11. A ação criativa se baseia no não saber, na descoberta que a abertura para o incerto proporciona. Assim, é necessário lutar contra o aparato evolutivo que hoje nos acompanha o qual preza tanto pela negação do incerto.

Está concluída a síntese do vídeo intitulado “Cegueira ética na origem das tragédias: da crise econômica a Brumadinho” de Cláudia Feitosa-Santana.

Note que negar as mudanças climáticas enquanto política dos governos mundo a fora – claro, há múltiplos interesses econômicos envolvidos na manutenção do modelo econômico existente – é se fechar para o incerto (como seria uma vida materialmente minimalista, ou um efetivo desenvolvimento sustentável?) e abraçar a catástrofe.

Por fim, logo abaixo temos um exemplo brasileiro de assassinato que buscou aniquilar uma incerteza: